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CAFÉ DO ZÉ PARTE 1

CAFÉ DO ZÉ PARTE 1

Agora você está entrando no Café do Zé. Fique à vontade, puxe uma cadeira. Histórias do cotidiano o aguardam.

Era um café bem chinfrim. Tinha, no máximo, 12 metros quadrados. Uma boa máquina italiana, uma estufa com salgados, um forninho para pão de queijo e misto quente, uma velha geladeirinha Cônsul (caso algum frequentador assíduo pedisse uma cerveja), três ou quatro mesinhas de ferro, uma prateleira com uma coleção de xícaras empoeiradas, as favoritas do dono. 

Zé era um mulato simpático, observador, conversava sempre na medida certa. Aquele pedacinho de chão, que ocupava parte do passeio público, era uma extensão dele próprio. Solteiro, vivia só em uma casa de cômodos não muito longe dali. Sobre seu passado, quase nada se sabia. Parece que era neto de escrava. Sua mãe nascera em uma grande fazenda de café e fora adotada pela família de fazendeiros. Morreu cedo, a coitada. Zé trabalhou com a família até a maioridade, depois teve de se sustentar e nem se lembra do tempo em que não trabalhou. Chegou até a receber uma herança de seu pai, filho do dono da fazenda, e o que sobrou dela foi um sobradinho. Ele alugava a parte de cima e guardava o dinheiro do aluguel. Onde era a garagem, funcionava seu café. Morava num quarto de pensão não muito longe dali.

Criado no meio dos cafezais, conhecia tudo sobre o fruto. Sabia plantar, colher, secar, torrar e moer os grãos, fazer a alquimia perfeita que só os que conseguiam ver a nobreza daquela alma simples tinham o privilégio de degustar.

Digamos que Zé era básico, não tinha grandes ambições, nem preocupações, sem filhos para criar, nem mulher para sustentar. Talvez, justamente por isso, transmitia uma paz invejada por muitos que por ali ficavam, tentando absorver a atmosfera do local.

 

Língua de prego

- Eu quero um café, expresso, meio carioca. Meio carioca é assim: com um pouquinho só de água quente. Dá para colocar espuma de leite? O leite é integral? Ah, então deixa. Pode ser sem espuma. Tem açúcar mascavo? Ótimo! Por favor, quero o café servido em xícara seca, se você não se importa. Detesto xícara molhada, muda o gosto do café, sabe? Você pode levar até a mesa? Estou esperando uma pessoa. Dá para limpar essa mesa aqui? Está suja. Obrigado.

O homem elegante e impecavelmente vestido puxa a cadeira, senta-se e abre o jornal com cuidado. Mal começa a ler e olha para cima, depois para os lados. Quando Zé vem com o café, ele pede para mudar de mesa porque ali onde estava havia uma corrente de vento. Muda-se epara um lugar mais reservado perto do balcão e diz que a música estava atrapalhando sua leitura. Zé, tentando ser gentil, diz que vai tomar providências e resmunga qualquer coisa ao entrar para a cozinha.

O executivo toma seu café devagar. Pede uma água mineral, garrafa pequena, sem gás, com uma pedra de gelo, suco de limão à parte e um copo seco, por favor. Detesta copo molhado. Reclama que agora a música estava praticamente inaudível. Sim, dava para aumentar o som, resmunga Zé.

Quinze minutos depois, entra uma moça de cabelos roxos espetados, unhas azuis, umas vinte argolas de metal em cada orelha e várias roupas pretas sobrepostas. Vai direto à mesa do homem bem vestido e o beija. Na boca. Demoradamente. Senta-se ao lado dele e sorri com cara de alcova. Ele disfarça. Ela contorna todas as reentrâncias da orelha esquerda dele com a língua de prego. Depois, segura seu rosto com as duas mãos e repete o gesto na orelha direita. Ele abre os olhos e sorri totalmente enfeitiçado pelos olhos verdes da exótica...

- Mais um café, expresso, meio carioca.

 

Frequentadora assídua

Todos os dias, lá vinha ela, logo cedo antes de ir para a escola, depois voltava no meio da manhã na hora do intervalo e mais uma vez antes de ir para casa. Parecia uma anoréxica, um fantasma. Zé até gostava dela, achava estranho porque pedia café duplo, forte, sem açúcar. Sempre segurando livros, colocando o cabelo para atrás da orelha e ajeitando os óculos, fungava. Não gostava de conversar, suas mãos tremiam ao segurar a xícara, se batesse um vento forte ela saia voando, de tão magrinha e frágil. Um dia, assim sem mais nem menos, comentou que a família não gostava dela, que eram uns idiotas e que se pudesse os mataria, um por um, lentamente. Mas que, pensando bem, não seria capaz de crimes perfeitos, daria muito trabalho se livrar dos corpos, suicídio seria melhor, causaria mais impacto e eles se sentiriam culpados.

Contam que certa noite perambulava pela casa, feito assombração, pálida, descabelada, de camisolão de cambraia e pés no chão. Pupilas dilatadas, coração disparado por overdose de cafeína, não encontrava o sono, a agonia lhe corroia o peito.

Desceu as escadas no escuro sentindo a madeira velha dos degraus rangerem a seus pés. Parou no meio da sala e ficou olhando a luz da rua a entrar pelo janelão envidraçado e fazer listas no tapete. Gostava do silêncio da madrugada, daquele cheiro de dama da noite que vinha do jardim. Ficou ali, olhando e pensando que a noite tornava tudo mais belo. Olhou suas mãos, tocou seu rosto, cruzou os braços em torno de si mesma num abraço solitário, começou a chorar em silêncio para não acordar o resto da família. Família? Estranhos sob o mesmo teto, uma gente esquisita que não fazia a menor ideia de quem ela era. Neuróticos, não perdiam a oportunidade de humilhá-la!

Malditos! Um dia ainda iria se vingar! Poria fogo na casa, envenenaria a comida, cuspiria no doce de abóbora. Mais uns dias e teria o prazer de riscar de ponta a ponta o carro novo do pai, picar a jaqueta de couro da mãe. Não. Picar não, não seria preciso: cortaria um pedacinho bem no meio das costas, derrubaria um vidro inteiro de esmalte importado na manga, ou quebraria o salto do Christian Louboutin legítimo. Poria um anúncio de garota de programa no jornal, com o celular e o e-mail da sua irmã. Publicaria na Internet aquela foto de seu irmão pelado que ela um dia descobriu no meio dos livros, enquanto fuçava seu quarto às escondidas.

Sentia-se poderosa enquanto sonhava com sua doce vingança. Foi até a cozinha e voltou com uma vela acesa, um bloco e uma caneta bic. Sentou-se na beirada da cadeira da sala de jantar e começou a escrever. A vela foi se consumindo, a chama aumentando e ela, lá... absorta, escrevendo... Gritou quando sentiu algo macio passando sobre seus pés e subindo pelas suas pernas brancas que nunca tinham sido depiladas.

- Um rato! Um rato! Um rato! - gritava correndo em círculos enquanto os malditos desciam a escada correndo para ver o que estava acontecendo.

O irmão conseguiu agarrar o hamster que havia fugido da gaiolinha, a irmã reclamou bastante e subiu a escada, os pais ficaram em choque, aparvalhados. Nem foram atrás da menina quando ela saiu correndo pela rua.  Um dia, passaram em frente ao café e perguntaram pela freqüentadora assídua. Estavam tristes, abatidos. Zé teve de dizer que ela nunca mais voltou.

 

O gringo

Sexta-feira, fim de tarde, todo mundo em clima de fim de ano, comemorando a chegada do décimo terceiro. Várias mesas do café estavam ocupadas com o pessoal que trabalha na região e que nessa época do ano finge se divertir com o sorteio do tal amigo secreto. Aêêê... Meu amigo não é amigo.... é aaamiiigaaa!

Apenas uma mesa estava ocupada por uma pessoa só. Era um cara grisalho e de barba que tomava cerveja observando a alegria do ambiente. Zé achou que ele era gringo, que tinha cara de sangue bom, aproximou-se e puxou conversa.

- How are you? Disse o mulato todo orgulhoso.

- Tudo bem, obrigado – respondeu o homem quase sem sotaque.

Era gringo mesmo, da Pensilvânia, antropólogo e desencanado. Apesar do sorriso amigável, estava com os olhos cheios de lágrimas e foi logo dizendo, na lata, que estava muito triste. Zé, solidário, perguntou por que e ouviu atento a história, se esquecendo um pouco dos outros fregueses.

O antropólogo havia morado na Bahia anteriormente, casou-se com uma baiana e depois que seu filho nasceu voltou com a família aos Estados Unidos. Custaram a se ambientar, começaram as brigas, a separação aconteceu, o tempo passou. Mais tarde, resolveu morar num veleiro, coisa de gringo, e se aventurar. Adorava saber que poderia navegar para onde quisesse em sua casa flutuante e começou pelo Golfo do México, depois pelas águas do Caribe. A viagem dos sonhos durou 45 dias desde a Flórida até Parati.

Deu tudo certo, ele foi ficando por lá. Estava feliz, no paraíso. O melhor, dizia ele, era acordar a cada dia com um cenário diferente, proporcionado pelo movimento da maresia. Às vezes, abria os olhos e via as montanhas, outras, o contorno da cidade histórica e assim passavam os dias de sossego. À noite, tocava blues num barzinho e depois dormia olhando a lua. Quer vida melhor? Just perfect.

      Por aqueles dias, uma tempestade tropical e a fatalidade: um raio atingiu o mastro de metal no meio da noite, destruiu o barco. Tudo estava perdido. Presente, passado, futuro, sua casa e seus pertences desapareceram depois de um trovão! Ele perdera tudo o que tinha nessa vida, estava apenas com a roupa do corpo, sandália havaiana e um celular pré-pago. Sem casa, sem esperança, sem saber para onde ir. Em Sampa, na casa de velhos amigos, tentava se recuperar.

Zé, ficou chateado, se emocionou, até. Colocou a mão no ombro do novo amigo e depois saiu.  Voltou com mais uma cerveja, uma porção de pão de queijo e disse: Fique aqui o tempo que quiser. Hoje é tudo por conta da casa!

 

As Duas

Depois do movimento grande na hora do almoço, o café geralmente ficava vazio, principalmente na segunda-feira. Zé, entediado, tomava seu primeiro café do dia. Uma bela executiva de seus trinta e poucos anos chamou sua atenção quando virou a esquina e caminhou decidida em direção às mesinhas de ferro. Ela era um outdoor ambulante, só roupa de marca, sapatos altos da melhor qualidade, bolsa daquelas que só tem dez no mundo e uma pasta de couro que deve ter custado um ano de gorjetas. Poderosa, pensou ele, sem tirar os olhos do rosto angelical e dos cabelos longos e bem cuidados, com reflexos dourados. Achou que ela era turbinada. E daí? Era gostosa pra caramba.

A moça tirou um lenço de papel da bolsa, passou no assento de uma das cadeiras, colocou seus pertences na outra, olhou o relógio, chamou o Zé e pediu com voz de veludo:

- Um gim tônica, por favor.

- Sinto muito. Não servimos gim tônica aqui -  se desculpou o bom homem - Pode ser uma cerveja bem gelada?

- Então me traz uma água e um café, pode ser?

Enquanto preparava o pedido, Zé notou que outra mulher acabara de entrar e de se dirigir rapidamente à mesa da primeira. Bonitona, porém, era outro tipo: magra, alta, cabelos bem cortados e de um tom avermelhado. Vestia um jeans justo, camisa branca e carregava uma mochila que, pelo tamanho e formato, deveria conter um notebook e tudo mais que uma pessoa possa precisar numa ilha deserta. Quando Zé trouxe o café para a gostosa, a recém-chegada pediu uma cerveja e um pacote de salgadinho. O café vazio e as bonitonas lá, provocando a imaginação do nosso amigo que não perdia um movimento. Tentou disfarçar o olhar insistente, mas elas não estavam nem aí com ele.

A executiva olhava nos olhos da outra, que correspondia. Bebericou a água e passou a língua nos lábios, num gesto sensual. Aproximou-se, segurou primeiro uma das mãos da altona e depois a outra, sem desviar o olhar. Para tortura de Zé, falavam baixinho, trocavam confidências e carinhos discretos. Ficaram ali um tempo, pagaram a conta, pediram um taxi e saíram de mãos dadas. Deixaram uma gorda gorjeta.

- Se elas topassem...- resmungou Zé suspirando.

E foi logo atender uma turma que acabava de ocupar a mesa maior.

 

Aqui jazz

 

Fim de tarde. Zé gostava do frio, gostava de pensar que estava em algum país da Europa, que seu café era em Paris, tinha até colocado um poster da torre Eifell, meio rasgado nas beiradas, na parede ao lado do balcão. Nos seus devaneios sentia-se bem enquanto limpava as mesas.

Uma mulher madura se aproxima, sorri sincera e pede um café. Logo depois, quem ela estava esperando chega andando apressado e senta-se ao seu lado. Dava para notar que era bem mais jovem que ela. Terno sóbrio, gravata discreta, sapato de cromo alemão. Também pede um café. Curto, por favor.

- Você não mudou... -  diz ele.

- Dez anos? Ou mais? - diz ela, sem sequer ousar olhar nos olhos dele com medo de morrer envenenada.

Um abraço cerimonioso, quase infantil, mãos frias e suadas, coração marcando um compasso. Começam a atropelar os assuntos como se a última conversa tivesse sido ontem e as horas vão passando. Tudo passa. As afinidades ficam. Havia um querer bem. As memórias, fotografadas de ângulos diferentes, desfilavam entre eles como tiras de celulóide de um antigo roteiro.

Algumas horas antes…

Ela está pronta para sair e, como sempre, anda pela casa feito barata tonta, certificando-se de que não esqueceu de nada. Revira a bolsa, pega a chave de casa com uma mão e, com a outra, liga o celular. Mais uma olhadinha no espelho do lavabo e abre a porta para chamar o elevador. O telefone toca e uma voz familiar pergunta quem fala. Ela responde hesitante e ele se identifica. Silêncio.

Ela entra, deixa cair o corpo na poltrona, larga a bolsa no chão e continua a conversa com voz contida, disfarçando a emoção. O estômago arde, aperta e regurgita uma mágoa há muito ruminada. Dez anos e a certeza de que um dia isso iria acontecer.  Marcam um encontro para o final da tarde, será que foi uma boa idéia? Estava atrasada, pensaria a respeito a caminho do escritório. 

Passa o dia sem nem um pingo de concentração fala ao telefone, responde e-mails, participa de uma longa reunião, olha no relógio, não quer almoçar. Toma água, desce até a calçada para fumar um cigarro, finge que trabalha mais um pouco e vai ao encontro de um fantasma, de alguém que ela duvidou que um dia tivesse existido. Aqui jazz um amor de adolescente.

 

Nuvem de fumaça

Zé chegou para trabalhar desanimado. Fumou um cigarro na esquina, voltou para o café e começou a limpar as mesas sem vontade de nada.

Ainda não era hora de movimento, havia uma pessoa aqui outra ali e bem na última mesa, no meio de uma nuvem de fumaça, uma loira aguada e com olhar de peixe morto fumava pensativa. O cabelo amassado estava preso por uma faixa de cetim totalmente inapropriada, a maquiagem meio borrada e vencida, reluzia colorida demais para a luz da manhã. Para se animar, Zé deu uma conferida e achou a mulher sem graça, peituda, mas sem graça. Continuou colocando os guardanapos, o açúcar e o adoçante, ajeitando aqui e ali. De vez em quando, dava uma olhadinha de esguelha para a tal loira. Será que ela estava esperando alguém?

O café foi enchendo, as pessoas começam a fazer pedidos, a falar mais alto e o movimento da clientela animou nosso amigo, que entre um pedido e outro bebeu um gole conhaque direto da garrafa que mantinha bem escondida. Limpou a boca na manga da camisa e continuou de olho na loira sozinha, fumando. Lá pelas tantas, entra um sujeito falando ao celular, vai direto para o fundo do café, puxa a cadeira com pressa e se senta em frente à loira que esmaga o cigarro e faz cara de nojo.

Zé, que havia visto tudo, procurou rodear a mesa para ver se ouvia alguma coisa, mas não conseguiu. O homem falou, falou e falou sem parar. A loira sorriu e soltou uma gargalhada. O homem levantou-se irritado, deixou cinco notas de R$100,00 e saiu do mesmo jeito que entrou. A loira pediu a conta e quando Zé foi levar, ela, que já estava de pé, arremessou os peitões contra o peito de Zé, deu-lhe um beijo cinematográfico e saiu. Nunca mais apareceu no café.

 

Mercado Financeiro

 

Fim de tarde normal no café do Zé. Muitos fregueses faziam hora lá por causa do trânsito. Ás vezes passavam, com pressa, engoliam um cafezinho e iam embora antes do rush, outras vezes ficarvam por ali, esperando o movimento dos carros diminuir para depois ir para casa.        Pensando nisso, Zé achou melhor ter dois tipos de café mais conhecidos no Brasil, assim teria assunto como os clientes, mostraria conhecimento: o arábica, que ele pessoalmente preferia, por ser mais requintado, originário do oriente, cultivado em regiões mais altas e grãos de cor esverdeada; e o robusta, originário da África, sabor típico, baixa acidez e teor mais alto de cafeína. Oferecia também café orgânico e adorava contar que visitou a fazenda e escolheu aquele café porque era um café feliz, crescia solto no meio de outras árvores.

Nos lugares públicos, sempre tem alguém que fala sem parar, muito mais alto que os demais, que chama mais atenção, até pelo timbre de voz ou pela atitude.O homem de terno claro e sapato marrom era assim: não precisava de microfone. Com as pernas espalhadas, apontava a própria têmpora com o indicador e dizia:

- Os caras enlouqueceram. O governo diz na reunião do Conselho Monetário Nacional que não vai alterar a meta de inflação desse ano, que vai manter 4,5%, inclusive para o ano que vem. O Banco Central quer manter esse percentual, mas isso é ambicioso demais. A economia está desacelerando e a gente como é que fica? E elevação dos juros, a queda do dólar, ninguém compra aço, tudo contribui para a pressa o no mercado financeiro e lá no banco a coisa está ficando insustentável. Comer sanduíche em frente a três telas de computador... Não dá! Trabalhar dezoito horas por dia virou rotina, cara. O celular não pára de tocar, quanto mais tecnologia mais exigem da gente. Diz que o pessoal da bolsa só falta se comer vivo, trancam os caras no banheiro, se chutam durante o pregão, sacaneam geral. Sabe o que o Medeiros disse? Você lembra dele, né? Meio antigão, tem quatro filhos, a mulher não trabalha...Sabe o que ele falou ontem? Você não vai acreditar. O cara chegou na minha sala babando, falando alto, olho arregalado, logo ele que é tranqüilo, veio contar que cabeças vão rolar. Estava apavorado o coitado. Os caras não querem nem…

- Amore, eu estou sem calcinha – disse a mulher que estava com ele.

-  ...saber. Estava tão vermelho, com as veias saltando da testa que parecia que ia ter um inf.... Quê?

- Hum...hum...Eu estou sem calcinha – repetiu ela remexendo o café.

- Sem nada, só com esse vestidinho. Quer ver?

Abriu a bolsa, tirou de dentro um pedacinho de renda preta e jogou na mesa.

- Ficou louca? Guarda isso já! O que foi que deu em você? Está todo mundo olhando, estamos na rua, sua doida!

- Olhando o quê, fofo? Ninguém sabe. Quis fazer uma surpresinha para você relaxar um pouco. Você anda tão chato...

- Vamos embora. Agora mesmo. Não quero que vejam você assim – disse ele pegando a rendinha e enfiando rapidamente no bolso do paletó.

- Já disse que ninguém sabe. Agora, se eu descruzar a perna assim...

- Pára com isso!

- Eu só queria provocar você, não precisa ficar nervoso, amore. Brincadeirinha...

- Quem disse que eu estou nervoso? Estou louco por você, gata, vem cá!

- Ai! Não me puxa. Deixa que eu levanto sozinha. Onde você quer ir?

- No banheiro, vamos. Você queria provocar não queria? Conseguiu.

- No de homem ou no de mulher? Ai, cuidado, não me aperta seu bruto!

- Qualquer um. Entra aí, vai!

 

Desgraçada...

Ele perambulou a noite toda. Por fim, sentou-se na calçada encostado à porta de ferro e ficou esperando o café abrir. Estava acabado, puto de raiva, com ódio, remorso, tudo junto. Zé vinha andando e falando ao celular, passou pelo cara acabado e foi procurar a chave no bolso da calça. Abriu aporta de ferro e o fulano foi logo entrando e pedindo uma média. Precisava ainda esquentar a máquina, organizar as xícaras. Ele não estava com pressa, podia esperar. Sentou-se. Um tempo depois, quando Zé trouxe a média e perguntou se queria um pão de queijo ele disse que não e foi logo falando o que havia acontecido na noite anterior.

Quando ele e a mulher (eram casados há 10 anos) voltaram do super mercado já era quase meia-noite. Os dois, cansados, tiraram as compras do carro, colocaram tudo em cima da mesa da cozinha e, sem dizer uma palavra, foram acomodando os alimentos nos seus devidos lugares.

Ele segurava na mão um desajeitado vidro de maionese de um litro (que ela insistiu e fez questão de comprar), olhava desanimado para o interior da geladeira pensando onde iria acomodar aquele trambolho, quando ela falou:

- Acabou, Norberto. Quero me separar de você. Esse casamento é uma hipocrisia, já não estamos juntos há muito tempo, é melhor cada um ir cuidar da sua própria vida antes que a gente sofra mais. Afinal a gente ainda não tem filhos, ainda bem. Não é isso que eu quero para mim, sabe, a gente ainda é jovem pode recomeçar, nossos interesses são muito diferentes e , quer saber? Acho que foi tudo um grande engano. Não agüento mais dicutir a relação, não tem diálogo, só eu falo. Olha aqui, o problema não é você, sou eu, entende? Você é quase perfeito, amigo, carinhoso, independente, mas está faltando alguma coisa, sabe?

Não, ele não sabia. Segurando o vidro ele ficou. Parado, de boca aberta olhava para ela como se estivesse vendo um extraterrestre. E ela continuou com mil argumentos, clichês que ele não conseguia ouvir.

Estava em estado de choque e ainda com o vidro na mão perguntou se havia outra pessoa. Só podia ser isso, alguém no pedaço e ele lá, corno total. Ela negou, jurou pela mãe, disse que ele estava louco, que não era nada disso, que simplesmente o amor havia acabado. Que ela estava confusa, precisava ficar sozinha, dar um tempo.

- Desgraçada!!! - gritou ele atirando o vidro de maionese com toda a força que a raiva conseguiu juntar.

- Des-gra-ça-da!!!

E saiu batendo a porta dos fundos com tanta força que a porta da geladeira, que já estava apitando de tanto tempo aberta, também bateu. Ela ficou parada. Um tempo depois pegou um pano e começou a limpar os azulejos cheios de maionese.

        Quando ele voltou para casa na manhã do dia seguinte tudo estava na mais perfeita ordem. A cozinha impecável, os jornais dobrados, a cama feita e as roupas no lugar. Abriu a porta do armário dela para ver se ela havia levado as roupas. Não. Tudo estava na mais perfeita ordem, para varia

 

Susto

Zé, estou grávida.

--Grávida. GRÁVIDA???

--É.

--Não pode ser. Não pode ser. A gente nunca...

--Foi naquele dia, lembra? A gente achou que dava? Não deu.

--E agora? O que a gente vai fazer?

--Nada. Eu quero o bebê. Já fui ao médico. Está tudo bem, não se preocupe, eu só queria contar pra você porque estou feliz.

-- Como assim? Não estou entendendo. Eu não estou pronto ainda.

--Eu já disse que vou ter o bebê, você não precisa me dar nada, sou eu quem quer e vai ter essa criança e ela será muito feliz. Eu quero muito.

--Preciso de tempo para pensar, depois tem a Dalva na parada, você sabe que eu já estava com ela quando a gente andou saindo.

--Claro que eu sei. Nunca te cobrei nada. Quer saber?  Acho que ela tem mais a ver com você do que eu. Estou num emprego estável, dou conta, depois minha mãe já sabe, liguei para ela e ela vai me ajudar. Faz tempo que não tem criança na família.

--Menina, que loucura! Você me pegou de surpresa. Estou besta, não sei o que dizer. Preciso pensar, me dá uns dias. O café está cheio tenho de voltar...

--Olha Zé, você é uma pessoa muito legal e eu estou feliz que seja o pai do meu filho, mas acho melhor a gente não se ver mais. Eu estou bem, nós vamos ficar muito bem. Fique tranquilo.

--Espera aí! Qual é? Você vem aqui, me dá um puta susto, me conta que eu vou ser pai e vai embora assim? Não está certo. Eu tenho responsabilidade. Olha só, vou lá dentro pegar um dinheiro para você. Tenho umas economias e quero ajudar. Você me espera? Hein? Fica aí, eu volto já.

--Está bem, eu espero.

Zé entrou no minúsculo depósito, pegou uma caixa de sapato e separou umas notas que estavam enroladas em um elástico. Quando ele voltou com dinheiro na mão ela já não estava mais. Zé saiu pela rua gritando seu nome, mas ela havia desaparecido.

 

Olhos Cor de Azeitona

E aquela menininha de cabelos cacheados acordava feliz todos os dias. Mal abria os olhinhos cor de azeitona já começava a falar e não parava até a hora de dormir. Quando não tinha com quem falar, falava sozinha.

Invariavelmente às seis e quinze da manhã a mãe preparava um copo de leite com Nescau e era só a menininha segurar o copo já dizia “Tá queeeeente”. A mãe esfriava depressa, passando o leite de um copo para o outro, colocava novamente na mesa e ouvia “Tá  friiiiiio”. Dia sim, dia não aquele copo de leite, que às vezes estava frio e às vezes estava quente, recebia um golpe do destino se esparramava pela toalha, pelo uniforme limpinho, pingando na meia, no tênis e melando o chão. A essa altura, o cachorro acostumado com a rotina ficava a postos acabava lambendo o que estava ao seu alcance.

A pedidos da empregada a toalha foi substituída por uma de plástico. Foi pior porque o leite se espalhava mais rapidamente no plástico impermeável e escorria pra todo lado.

Bem fazia seu irmão mais velho que, ao contrário da irmã faladeira, acordava calado (dormia vestido, o espertinho), de mau humor e tomava aquele copo de Nescau de uma vez, fazendo uma careta como se aquilo fosse veneno. O pai, que era impaciente e exigente, cansou de ver a mesma cena se repetir e passou a tomar café depois que todos saíam. Um dia, porém, chegou cedo na cozinha e anunciou que iriam fazer uma viagem, de trem ! Eba! Vamos viajar de trem! Novamente o leite derramado na toalha, o cachorro lambendo o chão, gritaria geral.

Na véspera, as crianças, animadíssimas, contavam as horas para entrar no trem. Chegaram à estação, era tudo novidade. Foi uma briga, ao entrar na cabine,  decidir quem ia dormir na cama de cima do beliche.  Dormir foi força de expressão: na verdade, ninguém dormiu. A menina queria ver o que tinha lá fora, estava escuro, ficou com medo. O menino não parava de falar, o pai e a mãe tiraram uns cochilos. Chegaram um pouco antes de amanhecer, pegaram um táxi até o hotel.

Estavam com fome. Depois de se acomodarem saíram para um reconhecimento da região. Estavam passando em frente ao café quando Zé, que  varria a calçada, deu um sincero bom dia. A família inteira parou.  Só o pai respondeu. Achou o lugar simpático, limpo, foi puxando uma cadeira e convidando todos a sentar.

--Eu quero misto quente - disse o filho mais velho que estava mesmo faminto.

--Café duplo, bem forte - disse a mãe com a cara amassada.

--Café com leite e pão com manteiga - disse o pai.

--Eu quero leitinho - diz a menina apoiando as mãozinhas na mesa que dava na altura do seu nariz.

Minutos depois chega o Zé com o pedido e deposita na frente da criança aquele copo gigantesco, ainda por cima com dois canudos que, sem dúvida elevavam a dificuldade. Os olhinhos cor de azeitona foram subindo lentamente, enquanto a boca se abria e o pai exclamava um sonoro putaqueopariu, sem se importar com o mau exemplo.

Nesse dia, ela nem conseguiu reclamar se estava frio ou quente. Com a ajuda da mãe, tomou tudo direitinho e ficou muda até o final da refeição.

- Quer mais?

- Não.

Zé sorriu.

 

O enterro da tia

Zé fechou o café, foi para casa, tomou um banho, colocou uma muda roupa em uma sacola de nylon, dessas que as agências de turismo dão de brinde, e foi direto pegar o metrô até o terminal rodoviário. De lá, pegaria o ônibus para Taubaté.

Naquele dia, um rapazinho de uns dezoito anos chegara ao café, com um papelzinho na mão, dizendo que era seu primo em terceiro grau, filho de uma prima da mãe do Zé, da qual ele nunca tinha ouvido falar. O moleque contou que a velha que morava no interior estava nas últimas e que queria ver a prima e o sobrinho de quem há muito não tinha notícias. Zé explicou que sua mãe morrera há muitos anos, que nem se lembrava dessa tia, mas que sim, iria visitá-la.  Apesar de não estar convicto de que aquela gente era sua família mesmo, resolveu satisfazer o desejo da moribunda, afinal seria um ato de caridade. Tinha que resolver umas coisas primeiro.

Chegou à cidade e foi direto ao endereço que o rapaz havia dado, a casa da tal tia que morava com uma filha de criação. Mas quando chegou, a pobre velha já havia morrido; jazia, gorda e de camisola, em cima da cama.

Zé ficou triste, chorou lembrando os tempos de criança, da mãe, da vida solitária que sempre teve. Quando se recompôs, foi tomar as providências, enquanto a moça ligava para os parentes e vizinhos. O velório foi em casa mesmo, as pessoas iam chegando, chorando, comendo bolinhos de chuva e tomando café. Depois da meia noite serviram uma canja. Os parentes que não se viam há anos falavam alto e a defunta lá, agora toda apertada no caixão, com seu vestido de festa e o terço bento pelo Papa enrolado nos dedos gorduchos. Zé estava sobrando. Por um momento se arrependeu de ter ido, mas agora que já estava lá, cumpriria sua obrigação.

No fim da madrugada, restaram apenas Zé, a filha adotiva, uma sobrinha solteira e a irmã da falecida, que o que tinha de magra tinha de chata. O silêncio era total, a não ser pelo zumbido das moscas que já sobrevoavam o caixão. O tempo parecia ter parado e o sono dominava a razão. De repente, um som estranho, algo como um mugido. Zé pulou assutado, morria de medo de assombração e achou que a velha, que nem sabia se era mesmo sua tia, havia ressuscitado. Chegou perto e ela lá, mortinha. Achou melhor ficar por ali, qualquer coisa... De novo, o barulho.

Flatulência, os últimos gases que o corpo eliminou.

 

Banal

Um bando de jovens estudantes se aproxima ruidosamente. Zé detesta esses meninos de 13 ou 14 anos, meio sujos, barulhentos, os pré-adolescentes, aborrecentes. Detesta. Só fazem barulho, ainda não sabem apreciar um bom café, consomem refrigerantes e pisam nas latinhas. Os feromônios efervescentes provocam atitudes um tanto animalescas: urros, pulos desajeitados gargalhadas e gritinhos histéricos. Arrastam as cadeiras, atiram as mochilas no chão, sentam-se de perna aberta, chutam-se e empurram-se de leve. A conversa é desconexa, mas não importa, cada um fala para si mesmo como se o resto do mundo não existisse e os insultos jorram de suas bocas.

Os seres ocupam duas mesas, jogam livros, agasalhos e mochilas, tudo no chão, pedem coca-cola, uma ou duas meninas água mineral. Pão de queijo? Alguém? Não, agora não. Um deles arrota alto provocando mais risos, o outro enfia na boca duas bolas de chiclete e limpa o cuspe que escorre na manga do moleton cinco ou seis números maior que o dele e com as beiradas dos punhos totalmente encardidas.

Ficam ali, cabulando aula e se aquecendo ao fraco sol da manhã.

Uma garota de cabelo cuidadosamente despenteado, graças a provavelmente um pote de gel, usa camisa de flanela amarrada na cintura e regata preta. Quando ela se baixa para amarrar o cadarço da bota de soldado perde o equilíbrio e cai em cima da amiga que está sentada e as duas vão parar no chão. Todos riem muito mais alto do que acham graça e as garotas não conseguem se levantar de tanto rir. Abraçam-se. Um dos garotos estende as duas mãos e puxa as duas para cima com força e elas conseguem se erguer apesar do ataque de riso. Uma delas dá um selinho no rapaz que a ajudou e faz uma cara de criancinha. A outra a imita, provocando. Ele se anima, passa o braço em torno do pescoço delas, uma de cada lado e as beija com vontade. Em seguida as duas se beijam lasciviamente.

De repente, a conversa pára e as risadas também. Então, começa uma degustação generalizada de bocas e línguas, uma mistura de afeto e erotismo grupal: homem com homem, mulher com mulher, faca sem ponta, galinha sem pé.  Fica um clima, até que alguém diz:

- Bóra galera!

Atiram um bolo de dinheiro amassado em cima da mesa, catam suas coisas e vão embora.

 

Sorte

De vez em quando dona Samira aparecia para pedir café torrado na hora e moído mais fino, que só o Zé sabia preparar. Geralmente passava lá quando ia à catedral ortodoxa, era apaixonada por um padre há anos, parece que ele também gostava dela, amor platônico, só suspiros e olhares: a religião sempre estava em primeiro lugar. Samira era devota, participante na comunidade, de vez em quando lia a sorte na xícara de café para amigas que precisassem de conselhos, fazia uns pasteizinhos de massa de ricota e recheio de presunto que eram uma delícia.

Um dia Zé disse que queria aprender a fazer café árabe. Ela concordou, desde que ele tivesse os apetrechos certos, senão não ficava bom. Fariam o café para ler a sorte dele.

- O que é que eu tenho que comprar, dona Samira? Onde vou achar essas coisas?

- Você tem que ir à rua 25 de março. Pega o metrô aqui perto, desce na São Bento, pega a Ladeira Porto Geral, num instante você está lá. Pode ir no domingo, está tudo aberto. Xícara não precisa, essa branca que você tem serve. Açúcar também tem aqui e o pó que você prepara está muito bom, está ótimo! Água filtrada, melhor.

- Tudo bem dona Samira, que mais precisa?

- Um bule especial com um cabinho de madeira. Já viu? Lá na 25 tem, você compra um. Compra um maior, assim, se algum dia alguém pedir você faz café árabe aqui. Compra xicrinhas sem asa também, é bonito servir direito, numa bandeja redonda. Depois que você tiver tudo, eu passo aqui e a gente faz o café, está bem? Ah, não se esqueça de comprar cardamomo, são umas sementinhas que dão um sabor especial.

Estava ótimo! Zé comprou tudo, inclusive as xicrinhas sem asa, e dona Samira ensinou: cinco xícaras de café de água, duas colheres de chá de açúcar, cinco colheres de chá de café em pó e cardamomo. Ponha para ferver a água em fogo médio, acrescente o açúcar, o pó de café e mexa. Quando subir abaixe o fogo, mexa; deixe ferver de novo, tire do fogo e ferva mais uma vez. Cuidado para não derramar enquanto ferve. Aguarde uns instantes para o pó assentar, sirva sem encher demais a xícara.

Ficou delicioso. Quando terminou de beber, dona Samira cobriu a xícara com o pires e pediu para Zé segurar a xícara tampada com a mão direita e dar três voltas sentido anti-horário, depois desvirar e esperar escorrer. Esperou uns minutos, desvirou cuidadosamente a xícara e mostrou o desenho que a borra do café havia formado no fundo. Ficou olhando concentrada, depois falou:

-Vejo caminhos abertos para você, muito trabalho, dinheirinho entrando, está vendo as moedinhas aqui? Dinheiro entrando, pouquinho, mas tem. Olhe aqui no fundo, tem duas mulheres, um coração dividido ao meio. Tristeza, muita tristeza. Muitas pessoas na sua vida... Olha aqui. Olha que engraçado, aqui tem uma criança. Você tem filho, Zé?

Dona Samira foi falando, descrevendo as figuras, apontando e Zé não conseguia ver nada. Achou que o cardamomo era um tipo de droga. Estava impressionado como a boa senhora adivinhava até o que ele estava pensando. No final, ela pediu para Zé colocar o dedo indicador no fundo, virar a xícara e pensar em algo que ele queria que acontecesse. Ele fez, pensou, limpou o dedão no avental e ficou esperando.

- O que você pediu vai acontecer com sucesso. Você vai conhecer umas pessoas que estão muito próximas daqui, mas vocês nunca se encontraram. Sua vida vai mudar. Para sempre! Gostou? Espero que sim. Faça o café várias vezes, até acertar o ponto. Qualquer dia desse eu venho aqui provar. Agora tenho que ir até a igreja.

E lá foi ela em seu passinho apertado, dando adeuzinho e sorrindo.

 

Depressão.

Desanimada, ela abre a janela para ver como está o dia. Nem se lembra que é domingo novamente, mais um detestável domingo de sol e de solidão. Arrastando os pés vai até a cozinha, mecanicamente toma um copo de água, meia dúzia de comprimidos. Pega o jornal na porta, joga em cima da mesinha e liga a tevê. O telefone toca, mas ela não atende, não quer falar com ninguém, não quer ver ninguém. Com os olhos fixos na tela, não presta atenção na veemente pregação do pastor evangélico e nos fiéis que a cada final de frase dizem aleluia!

Estava com fome. Decide sair para tomar o café da manhã perto de sua casa. Troca de roupa, lava o rosto, escova os dentes, penteia o cabelo. Quando se olha no espelho desanima; está branca, com olheiras, parecendo dez anos mais velha. Foda-se. Sabia que ninguém iria olhar para ela, mesmo. Pega o jornal, bate a porta e sai.

O dia estava agradável, caminha até o café do Zé, olha para o céu e puxa a cadeira de uma das mesinhas na calçada. Abre o jornal na página de óbitos, como de costume, passa os olhos por todos os anúncios tentando achar algum nome conhecido.

Pensa no seu próprio funeral. Quer ser cremada, depois de doar o que for aproveitável de sua carcaça. Não haverá velório, mas uma cerimônia simples antes da cremação. No caixão, rosas ou orquídeas, nada de flores fedidas e nem velas artificiais, aquelas de plástico com uma ridícula lampadazinha de luz inconveniente. Se alguém quiser dizer algumas palavras, que sejam verdadeiras e se houver música, que sejam canções alegres. Padre? Nem pensar. Eles nem conhecem o defunto, dizem sempre as mesmas coisas sem sentimento e vêm sempre de paletó surrado e camisa puída. Então, começou a visualizar os detalhes, as pessoas chegando, olhando seu rosto e mãos de cera no caixão. Quem será que iria lhe prestar a última homenagem e chorar a sua morte? E depois? Depois, nada. Ninguém sabe nem nunca voltou para contar. A luz no fim do túnel não seria a projeção dos neurônios se desligando? Ou há um portal que recebe as almas? O barqueiro da morte? Um anjo de asas douradas? Não importa.

O aroma do café fez com que voltasse à vida. Aqueles grãos torrados eram capazes de gerar uma bebida maravilhosa, quente, estimulante, sensual... Tomou o primeiro gole de olhos fechados, depois voltou ao obituário no jornal.

 

Gente fina

Zé está de olho numa  velhinha que anda apoiada na bengala e carrega uma sacola de pano no braço. Vem pelo lado de dentro da calçada, quase esbarrando nos muros, talvez para se sentir, de certa forma, apoiada. Porte altivo, bem arrumada e toda penteada, tem um rosto aristocrático, apesar de enrugado ainda conserva belos traços. Parece uma baronesa.

Passa em frente ao café e para. Sacudindo a bengala, chama o Zé e pergunta:

- Você aí! Venha cá meu rapaz. Preciso de um café com leite bem clarinho e um copo de leite morno, à parte. Você poderia fazer a gentileza de me servir?

Claro que poderia. Fazendo uns salamaleques, com um cuidado exagerado, Zé ajuda a velhinha a se sentar e vai providenciar o pedido. Procurou caprichar, afinal era uma fina senhora.

Enquanto isso, a dama abre a sacola de pano, tira um pedaço de pão embrulhado em papel-toalha, uma faquinha de plástico e um gato. Coloca tudo em cima da mesa, chama o Zé novamente, pede um pires e um pouquinho de manteiga.

Zé, que tinha alergia a gatos, fica apreensivo. Não achava nada bom um gato em cima de uma das mesas, poderia espantar a clientela, mas abre a boca. Espirra feito louco e esfrega os olhos vermelhos. Leva tudo o que foi pedido e fica invocado. Depois, se acalma, vai fazer outra coisa e não presta mais atenção na velhinha que passa manteiga no pão, despeja o leite no pires e fica por ali bastante tempo. De barriga cheia, o gato dorme ao sol.

Depois que a anciã saiu, Zé limpou bem a mesa e as cadeiras com um pano com álcool. Quando lavou a calçada no fim do dia, jogou creolina pura. Pelo jeito não adiantou porque ninguém mais sentou naquele lugar. Reclamavam de cheiro de xixi.

 

Moleque

Chovia a potes. Era uma daquelas tardes de fevereiro quando a chuva, em vez de refrescar, levanta um vapor do cimento quente e fica aquele abafamento. O café estava vazio e Zé preenchia várias cartelinhas da loto. O pequeno toldo de lona enchia de água e criava um chuveiro grosso no canto direito da fachada. Ele ficou preocupado, com medo que a armação desabasse. Pegou uma vassoura e cutucou o tecido, eliminando a água pelos lados da cobertura. Pronto. Deveria funcionar por um tempo.

A chuva continuava e o toldo tornava a encher. Quando Zé ia repetir a operação cutuca lona viu um moleque debaixo de onde caía mais água. Devia ter uns 10 anos, vestia uma camiseta escura onde se lia em letras grandes University of Miami. Por estar ensopada, quase chegava ao chão e o garoto lá, pulando, de boca aberta, tomando água da chuva.

Zé ficou olhando e riu. Ele mesmo tinha vontade de sair na chuva, chutar poças d’ água e brincar na enxurrada. Mandou o garoto sair duas vezes e na terceira vez o menino respondeu:

- Eu me chamo Denílson e só tô tomando chuva, moço.

- Entra aí, Denilson, sai da chuva – disse Zé complacente.

Pingando e feliz da vida, o garoto aceitou. Tirou a camiseta e torceu para o lado da calçada, depois sacudiu bem e torceu de novo. Espremeu as laterais do shorts de nylon e passou a mão no cabelo molhado.

- Posso ir no banheiro? Só pra lavar a mão.

- Vai lá, mas não faz bagunça, tá?

Saiu do banheiro com cheiro de sabão líquido. Zé achou que ele tomou banho na pia, ficou com dó. Preparou  um café com leite bem quente, pão com manteiga e puxou conversa. Denílson estudava na escola pública do bairro, trabalhava no mercadinho fazendo entregas, ajudava a mãe e jogava no timinho da rua. Dava duro, fazia o dever, mas naquele dia resolveu cabular.

Era uma daquelas tardes abafadas de fevereiro e Denílson era apenas uma criança.

 

Enchente

Em frente ao café, do outro lado da rua havia um ponto de ônibus bem na porta da oficina de um tapeceiro, coitado. Era um inferno cada vez que ele precisava entrar ou sair com sua caminhonete velha, ora carregada com poltronas sujas, ora com sofás renovados, cobertos com plástico-bolha. Como o ponto não tinha cobertura de alumínio, o sol batia sem piedade e o povo se amontoava quase dentro da oficina, para poder ficar na sombra. Em dia de chuva era pior.

Próximos ao ponto, ficava um vendedor de balas e outras porcarias, uma senhora com bolos, enormes pães de queijo ocos e  várias térmicas de café, aqueles vendedores de chicletes e chocolates que ficam fazendo discurso dentro do ônibus. Boa tarde pessoal. Desculpe atrapalhar sua viagem, pessoal. Um deles, vestido de palhaço. À tarde, churrasquinho de gato com farinha e tudo. A calçada esburacada ficava cheia de lixo, descartáveis, plástico, bitucas, cusparadas, um nojo. Um dia, chamaram um cara para retocar o cimento e o folgado cimentou por cima da sujeira.

Zé olhava e pensava nas enchentes que vira no noticiário na noite anterior. Nisso, um bêbado dá sinal para o ônibus. A porta se abre, ele agarra o corrimão, atira a lata de cerveja no meio da rua e sobe. O cobrador aproveita e arremessa um monte de papel picado pela janela.

A vizinha do tapeceiro resolve lavar o quintal, manda um balde cheio e a água com sabão escorre pela calçada. As pessoas paradas esperando o ônibus se afastam erguendo um pé de cada vez. Reclamam, mas a vizinha nem liga e esfrega o chão com a vassoura.

Zé olhava e pensava que era melhor ficar lavando xícara o inteiro do que sujar a rua daquele jeito. Gente porca. Depois reclamam das enchentes.

 

Cascuda

… e asquerosa, lá estava ela parada no cano da torneira da pia. Era grande, repugnante, a desgraçada, com antenas duas vezes seu tamanho tateando o cano enferrujado. Suas asas pardas se entreabriam e fechavam em um movimento lento e nojento, parecia que ia voar. Zé pegou a vassoura, escorregou o pé para fora do chinelo, abaixou-se e o empunhou como uma segunda arma de defesa.

E a barata lá, só mexendo as antenas. Zé optou pelo chinelo. Desferiu um golpe certeiro e a bicha caiu de costas na pia. Ficou imóvel por uns segundos, mas depois começou a mexer as pernas tentando se desvirar. Conseguiu! A chinelada não fez efeito e ela saiu lépida entrando atrás do quadrinho do Sagrado Coração de Jesus.

Zé largou a vassoura e foi procurar um inseticida. Derrubou tudo o que estava na prateleira, pegou o aerosol e mirou no quadro, apertando o pino como quem aperta o gatilho de uma arma assassina. O líquido formou uma névoa e depois escorreu pelo quadro.

- Agora eu matei! – disse  ele.

Continuou sua rotina, limpou a sujeira, guardou a bagunça, lavou bem as mãos e disse bom dia a um freguês que acabava de entrar. Cafezinho carioca com espuma de leite, um copo de água sem gelo e um pão de queijo. Pão de queijo não tinha, foi pão de batata. Começaram a conversar sobre o calor, o trânsito, nada de mais. O sujeito era amável e Zé, que estava gostando do papo, serviu a água e em seguida colocou no balcão o café e o pão em um pratinho. O freguês começou a fazer perguntas sobre a coleção de xícaras, Zé se distraiu  e quando bateu o olho no balcão viu a baratona em cima do pão de batata. Putz grila! Ficou sem ação. O freguês, que estava de costas, continuou falando. E agora? Cadê a vassoura? Estava longe. E o chinelo? Era a sua chance. Sorrindo fez uma espécie de reverência, pegou o chinelo e tacou na barata por cima do ombro do freguês. Ela fugiu de novo. Filhadaputa! E agora ele havia ficado mal com o simpático cliente que provavelmente jamais voltaria a café.

E não é que o Zé estava enganado? O cara era biólogo, não estava nem aí com a dita cuja.

 

Saco cheio

Zé acorda de saco cheio da vida. Não quer nada com nada. Todo dia a mesma rotina besta, levantar, tirar o pano da gaiola, alimentar e dar água aquele pequeno ser aprisionado, tomar, ele próprio, uma chuveirada fria, barbear-se, vestir-se, caminhar até o café. Por quê? Para quê?

Em ritmo lento, prossegue o ritual. Desenrola a porta de ferro, liga a máquina, passa pano no balcão, depois nas mesinhas. A cidade está parada. Ele olha no relógio para ver se não havia se enganado no horário. Não, eram oito horas mesmo. Dá uma varrida na calçada, junta o lixo na pazinha, joga no latão. 

Prepara um café e senta-se como se fosse um freguês. Não passa ninguém na rua, que saco! Fica ali um pouco, tamborilando os dedos na mesa, balançando o pé. Resolve então assumir o mau-humor. Levanta, lava a xícara que usou, recolhe as mesinhas, baixa a porta de ferro, pendura uma folha de papel com um volto já mal escrito, põe a chave e no bolso e sai andando.

Só depois de um tempo é que começa a apreciar o cenário. Percebe os detalhes dos prédios, os desenhos das grades de ferro, a beleza das árvores. Começa a prestar atenção nos rostos das pessoas, um sem fim de dessemelhanças andando depressa.

Zé não havia reparado o quanto as calçadas são esburacadas. Continua sem rumo e se sente outra pessoa. Repara na loja de telefonia, no fruteiro, na banca de jornais, no café... Sentiu o cheiro e parou. Era um lugarzinho fuleiro, parecido com o seu. Por que não? Entrou. Procurou uma mesa e pediu uma média. Era bom ser freguês para variar. O relógio cuco marcou onze horas e Zé reforçou o pedido: uma média, um guaraná e um pedaço de bolo. Apreciou ser servido. Sentia-se bem agora. Procurando o banheiro, tentou abrir uma porta meio emperrrada que aparentemente dava em um beco que ficava atrás do café. Forçou para cima, para baixo, sacudiu, deu um murro acima do trinco. Bem devagar, com a certeza de que conseguiria, suspendeu e virou o trinco. A porta abriu. Não era o banheiro mas mesmo assim ele entrou...

 

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