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O Ganhador do Cavalinho de Balanço – Tradução Sandra Schamas

O Ganhador do Cavalinho de Balanço – Tradução Sandra Schamas

Do conto OriginalThe Rocking Horse Winner de D.H. Lawrence Curso Formativo de Tradutores Literários - Casa Guilherme de Almeida Oficina de Prosa Professora Alzira Allegro

 

 Era uma mulher linda, que nascera com todos os privilégios, menos a sorte. Casou-se por amor e o amor virou pó. Teve filhos robustos e saudáveis, mas sentia que eles lhe haviam sido impostos e ela não conseguia amá-los. Olhavam-na com frieza, como se a censurassem, deixando-a com a sensação de que precisava esconder algo errado dentro de si. Contudo, o que de fato precisava esconder ela jamais soube. Não obstante, sempre que as crianças estavam presentes sentia o coração endurecer. Isso a incomodava tanto que, no seu modo de agir, ela ficava mais meiga e mais e zelosa em relação aos filhos, como se os amasse muito. Somente ela, e mais ninguém, sabia que no fundo do seu coração havia esse lugarzinho enrijecido que não conseguia sentir amor − não conseguia − por ninguém. Todos falavam dela: “Como é boa mãe! Adora os filhos.” Somente ela, seus próprios filhos, e mais ninguém sabia que não era verdade. Eles liam isso nos olhos uns dos outros.

Havia um menino e duas menininhas. Viviam em uma casa confortável, com jardim, tinham criados discretos, e sentiam-se superiores a todos da vizinhança.

 Viviam com classe e em grande estilo; entretanto sentiam que pairava sempre uma grande ansiedade na casa. Nunca havia dinheiro suficiente. A mãe tinha uma pequena renda e o pai também tinha uma pequena renda, mas não era suficiente para sustentar a posição social que eles tinham que manter. O pai sempre ia à cidade, onde exercia algum cargo; tinha boas perspectivas, mas os projetos nunca se materializavam. Embora sempre houvesse uma desconfortável sensação de escassez de dinheiro, o estilo de vida era mantido.

 Por fim, a mãe disse:

 − Vou ver se eu consigo fazer alguma coisa − porém, ela não sabia por onde começar. 

Queimava os miolos, tentava uma coisa e outra, nunca tinha sucesso. O fracasso traçava linhas profundas em seu rosto. As crianças estavam crescendo e logo teriam de ir à escola. Precisavam de mais dinheiro, precisavam de mais dinheiro. O pai, sempre muito elegante e demonstrando ter gostos refinados, dava a impressão de que jamais seria capaz de fazer algo que valesse a pena. A mãe, que possuía muita confiança em si mesma, também nada conseguia melhor do que ele e tinha os mesmos gostos refinados e ostensivos.

E assim, a casa passou a ser atormentada por uma frase não dita: É preciso mais dinheiro! É preciso mais dinheiro! Os filhos podiam ouvir o tempo todo, apesar de ninguém dizer nada. Ouviam no Natal, quando presentes maravilhosos e caros enchiam o quarto de brinquedos. Detrás do moderno e reluzente cavalinho de balanço, detrás da sofisticada casinha de boneca, uma voz sussurrava: É preciso mais dinheiro! É preciso mais dinheiro! As crianças paravam de brincar e, por um momento, escutavam. Olhavam nos olhos umas das outras para ver se todas tinham ouvido e cada uma via nos olhos da outra que também tinha ouvido. É preciso mais dinheiro! É preciso mais dinheiro! O murmúrio vinha das molas do cavalinho que ainda balançava e até o próprio cavalinho, que vergava sua cabeça de madeira, podia ouvir. A enorme boneca cor de rosa, sentada no carrinho de bebê, também podia ouvir perfeitamente e exibia um sorriso malicioso por causa disso. O cachorrinho pimpão, que ocupava o lugar do ursinho de pelúcia, tinha um olhar tão tolo, parecia completamente apatetado, e não era por nenhum outro motivo a não ser o fato de ter ouvido a voz que sussurrava por toda casa: É preciso mais dinheiro!

No entanto, jamais alguém o havia pronunciado em voz alta; o sussurro estava por toda parte, mesmo sem ninguém tê-lo expressado. Do mesmo modo que ninguém diz: “Estamos respirando”, apesar de o ar entrar e sair o tempo todo. 

− Mãe – disse o pequeno Paul um dia −, por que não temos um carro só nosso? Por que sempre usamos o carro do titio ou um táxi? 

− Porque somos o lado pobre da família − disse a mãe.

− Mas por que nós é que somos pobres, mãe? 

− Bem... acho que... – disse a mãe, amarga e lentamente − é porque seu pai não tem sorte.

O menino ficou em silêncio por um tempo.

− Sorte é dinheiro, mamãe? – perguntou ele, tímido.

−Não, Paul. Não é bem assim. É o que faz com que você tenha dinheiro.

− Ah! – disse Paul distraído – Pensei que quando o tio Oscar disse fortunado, ele quis dizer com dinheiro.

− Fortunado não quer dizer com dinheiro − disse a mãe −, e não é fortunado, é afortunado. Mas fortuna também é sorte.

− Ah, − exclamou o rapazinho – então o que é sorte, mãe?

− É o que faz com que você tenha dinheiro. Se você é afortunado, sortudo, você tem dinheiro. Por isso, é melhor nascer rico e sortudo. Se você for só rico e não tiver sorte, pode perder seu dinheiro; por outro lado, se você tiver sorte, você sempre vai ter mais dinheiro.

− Nossa! É mesmo? Então o papai não é sortudo?

− Ele é muito azarado, eu diria, − respondeu ela ríspida.

O filho olhou para a mãe com certa dúvida.

− Por quê? – perguntou ele.

− Não sei. Ninguém sabe por que uma pessoa tem sorte e outra não.

− Não? Ninguém mesmo? Será que ninguém sabe?

− Talvez Deus saiba, mas Ele nunca nos diz.

− Ele devia dizer. E a senhora também não tem sorte, mamãe?

− Como poderia, se me casei com um homem sem sorte?

− Mas a senhora mesma, não tem?

− Eu achava que tinha antes de me casar. Agora acho que também sou muito azarada.

− Por quê?

− Bem... Não importa! Na verdade, talvez eu não seja azarada − disse ela.

O menino olhou bem para ela para ver se estava mesmo sendo sincera. O que ele viu, entretanto, pela expressão de sua boca, era que só estava tentando esconder algo.

− Bem, de qualquer maneira − disse ele confiante − eu sou uma pessoa de sorte.

− Por quê? − perguntou a mãe rindo subitamente.

Ele a fitou. Nem sabia por que havia dito aquilo.

− Deus me disse − arriscou sem constrangimento.

− Espero que sim, querido! – disse ela novamente com um sorriso, mas agora bastante amargo.

− Ele me disse, mãe!

− Excelente! – disse a mãe, usando uma das exclamações que o marido costumava usar.

O menino percebeu que ela não acreditava nele: ou melhor, que ela não havia prestado atenção à sua afirmação. O fato o deixou um pouco irritado e fez com que ele exigisse mais atenção.

Ele se fechou, de um modo vago e infantil, procurando algum indício de “sorte”. Absorto, ignorando os outros, ele agia de maneira furtiva procurando pela sorte interiormente. Ele queria sorte, queria sorte, queria sorte. Enquanto as duas meninas brincavam de boneca no quarto de brinquedos, ele sentava no seu cavalinho de balanço e fazia movimentos frenéticos com tal exagero que as meninas se assustavam. O cavalo arremessava-se desenfreado para frente e para traz, o cabelo escuro e ondulado do garoto agitava-se e seus olhos mostravam um estranho brilho. As meninas nem se atreviam a falar com ele.

Quando chegou ao fim de sua curta e enlouquecida jornada, ele desceu e ficou parado na frente do seu cavalo de balanço olhando fixamente para sua cara abaixada. A boca vermelha do animal estava ligeiramente aberta e seus olhos enormes eram vidrados e brilhantes.

− Agora! − ordenou ao corcel resfolegante − Agora leve-me onde a sorte está! Leve-me agora. 

E golpeava o pescoço do cavalo com o chicotinho que havia pedido ao tio Oscar. Ele sabia que o animal o levaria onde a sorte estava; bastava obrigá-lo. Então, montava de novo e começava sua cavalgada furiosa esperando, enfim, chegar lá. Sabia que poderia chegar lá.

− Você vai quebrar seu brinquedo, Paul! − ralhou a preceptora.

− Ele sempre cavalga assim! Ele precisa parar com isso! − disse Joan, sua irmã mais velha.

Ele apenas as encarou sem nada dizer. A governanta desistiu. Percebeu que nada conseguiria. De qualquer forma, o garoto estava fugindo de seu controle.

Um dia, sua mãe e seu tio chegaram quando ele estava em uma de suas cavalgadas frenéticas. O menino não falou com eles.

− Olá, pequeno jóquei! Montando um vencedor? − disse o tio.

− Você não acha que está grande demais para brincar num cavalinho de balanço? Não é mais um menininho, sabia? − completou mãe.

Porém, com seus grandes olhos azuis, bem próximos um do outro, Paul limitou-se a encará-los. Não podia falar com ninguém, enquanto estivesse em pleno vai e vem. Sua mãe o observava com uma expressão de ansiedade no rosto.

Por fim, ele parou subitamente de forçar o galope mecânico e desceu de seu cavalo.

− Bem... Cheguei lá! – anunciou confiante, seus olhos azuis ainda faiscando e suas pernas fortes, longas e afastadas.

− Chegou onde? − perguntou sua mãe.

− Cheguei onde eu queria chegar − retrucou ele.

− Está certo, filho! − disse tio Oscar − Não pare enquanto não chegar lá. Qual o nome do cavalo?

− Ele não tem nome – disse o menino.

− Ele vai em frente sem um nome e tudo bem? − perguntou o tio.

− Bem, ele tem vários nomes. Na semana passada chamava-se Sansovino.

− Sansovino! É mesmo? Ele ganhou o circuito de corridas de Ascot. Como você soube o nome dele?

− Ele sempre conversa sobre corrida de cavalos com Bassett − disse Joan.

O tio ficou encantado por saber que seu pequeno sobrinho estava bem informado sobre as notícias do hipódromo. Bassett, o jovem jardineiro, que havia ferido o pé esquerdo na guerra e conseguido seu emprego por indicação de Oscar Cresswell, de quem havia sido ordenança, era um perfeito especialista em turfe. Vivia nos páreos, e o menino estava sempre com ele. 

Oscar Cresswell ficou sabendo de tudo por Bassett. 

− O senhorzinho Paul chega e me pergunta, e eu não posso fazer nada a não ser responder, senhor − disse Bassett com uma expressão muito séria, como se estivesse falando de assuntos religiosos.

− Ele já apostou alguma vez?

− Bem... Eu não quero entregá-lo... Ele é um jogador novato, um bom jogador, senhor. O senhor se importa de perguntar a ele? Ele parece sentir prazer em falar sobre isso, e ele pode me achar um traidor, se não se importa.

Bassett mostrava-se solene como um templo.

O tio foi ter com o menino e o levou para dar uma volta de carro.

− Diga aí, Paul, meu velho, você já apostou em algum cavalo? − perguntou o tio.

O menino olhou para o elegante cavalheiro bem de perto.

− Por quê? O senhor acha que eu não deveria? − replicou o jovenzinho na defensiva.

− Absolutamente! Pensei que talvez você pudesse me dar um palpite para o circuito de corridas do Lincoln. Você sabe que, na Inglaterra, Ascot, Leger, Grand National, Lincolnshire e Derby são circuitos de corrida de cavalos tão importantes quanto Lincoln.

O carro seguia velozmente pelo campo na direção de casa Hampshire, onde morava tio Oscar. 

− Palavra de honra? − disse o sobrinho.

− Palavra de honra, filho! – disse o tio.

− Está bem, então... Daffodil.

− Daffodil! Duvido, filho. Que tal Mirza?

− Eu só sei quem é o vencedor − disse o garoto –, é Daffodil.

− Daffodil, hein?

Houve uma pausa. Comparado com os demais, Daffodil era um azarão.

− Tio!

− Sim, filho.

− Não conte para ninguém, está bem? Eu prometi a Bassett.

− Bassett que se dane, meu velho! O que ele tem a ver com isso?

− Somos sócios. Somos sócios desde o começo, tio, quando ele me emprestou cinco xelins e eu perdi. Eu dei minha palavra de honra a ele que era só entre nós dois; só depois que o senhor me deu aquela nota de dez xelins foi que eu comecei a ganhar, então pensei que o senhor era sortudo. Ninguém pode saber, está bem?

O garoto olhou para o tio com aqueles grandes e intensos olhos azuis, muito próximos um do outro. O tio se mexeu, desconfortável, e deu um sorriso forçado.

− Você está certo, filho! Vou manter seu palpite em segredo. Daffodil, certo? Quanto está apostando nele?

− Tudo, menos vinte libras − disse o menino −, que eu costumo deixar de reserva.

O tio achou aquilo uma boa piada.

− Então, você deixa de reserva vinte libras, seu espertinho? Afinal, quanto está apostando?

− Estou apostando trezentas − disse o garoto solenemente −, mas isso fica só entre nós dois, tio Oscar! Me dê sua palavra de honra!

O tio deu uma sonora gargalhada.

−Fica só entre nós dois. Você está parecendo o jornalista Nat Gould, que sabe tudo sobre corridas de cavalo  − disse ele rindo −, mas onde estão suas trezentas libras?

−Bassett guarda para mim. Somos sócios.

− Sócios! Ah! Entendi! E quanto Bassett está apostando em Daffodil?

−Ele não vai tão longe quanto eu, espero. Talvez ele chegue a cento e cinquenta.

− O quê, centavos? − caçoou o tio.

− Libras! – disse o garoto, olhando surpreso para seu tio − Bassett tem uma reserva bem maior do que a minha.

Entre a surpresa e a jocosidade, tio Oscar ficou em silêncio. Não insistiu no assunto, mas estava decidido a levar seu sobrinho às corridas de Lincoln junto com ele.

− Agora, filho − avisou o tio −, vou apostar vinte no Mirza e cinco no cavalo que você escolheu. Qual é o seu palpite?

− Daffodil, tio.

− Não, uma nota de cinco no Daffodil, não!

− Eu faria isso se fosse a minha nota de cinco − disse o menino.

− Está bem! Está bem! Você é que está certo! Uma nota de cinco por mim e uma nota de cinco por você no Daffodil.

O garoto nunca havia estado numa corrida de cavalos, e seus olhos eram puro fogo azul. Ele franziu bem a boca e ficou observando. Um francês, que estava bem na frente, apostou no Lancelot. Empolgado, ele sacudia os braços para cima e para baixo, gritando Lancelot! Lancelot! com seu sotaque francês.

Daffodil chegou em primeiro, Lancelot em segundo, e Mirza em terceiro.

Era curioso ver que o jovem, corado de empolgação e com intenso brilho no olhar, estava sereno. O tio lhe trouxe quatro notas de cinco libras, quatro por um.

− O que eu vou fazer com isso? − gritou o tio, sacudindo as notas diante dos olhos do menino.

− Acho que temos que conversar com Bassett − disse o rapazote −, espero ter mil e quinhentas agora; e vinte de reserva; e mais essas vinte.

O tio observou-o por alguns instantes.

− Escute aqui, filho!− disse ele – Você não está falando sério sobre Bassett e as mil e quinhentas, está?

− Sim, estou. Mas fica só entre nós, tio. Palavra de honra?

− Palavra de honra! Mas preciso falar com Bassett.

− Tio, se o senhor quiser, podemos ser todos sócios, Basset, o senhor e eu. A única coisa que o senhor precisa prometer é que vai ficar só entre nós três. Bassett e eu temos sorte, o senhor também tem que ter sorte, porque foi com seus dez xelins que comecei a ganhar...

Tio Oscar levou os dois, Bassett e Paul, ao Richmond Park por uma tarde inteira e lá conversaram.

− Foi assim, sabe, senhor: patrãozinho Paul me ouvia falar de corridas, contar casos, sabe como é, não é senhor? E ele sempre queria saber quando eu ganhava ou perdia. Faz mais ou menos um ano, que eu apostei para ele cinco xelins no Blush of Dawn... e nós perdemos. Então, a sorte virou com aqueles dez xelins que ele ganhou do senhor e que nós apostamos no Singhalese. Desde essa ocasião tem sido bem constante, considerando tudo. Quer falar alguma coisa, senhorzinho Paul?

− Quando temos certeza, fica tudo bem − disse Paul−, é quando não temos certeza que nós perdemos.

− Ah!Mas então, nós tomamos cuidado − disse Bassett.

− E quando é que vocês têm certeza? – perguntou tio Oscar, sorrindo.

− É o senhorzinho Paul, senhor − disse Bassett, com voz de confessionário –, é como se o palpite viesse do céu. Como Daffodil, agora, no Lincoln. Foi certo como dois e dois são quatro.

− Você apostou alguma coisa no Daffodil? – perguntou Oscar Cresswell.

− Sim senhor. Fiz minha aposta.

− E o meu sobrinho?

Bassett ficou obstinadamente calado, olhando para Paul.

− Ganhei mil e duzentas, não foi Bassett? Eu disse ao tio que tinha apostado trezentas no Daffodil.

− Isso mesmo − disse Bassett, balançando a cabeça.

− E onde está o dinheiro? − perguntou o tio.

− Eu guardo tudo bem seguro e trancado, senhor. O senhorzinho Paul pode pegar tudo na hora que quiser.

− O quê? Mil e quinhentas libras?

− Mais vinte! E mais quarenta, quer dizer, com as vinte que ele fez na pista.

− Isso é incrível! – disse o tio.

− Se o senhorzinho Paul convidou o senhor para ser sócio, se o senhor me permite, no seu lugar eu aceitaria; − disse Bassett.

Oscar Cresswell pensou a respeito.

− Vou providenciar o dinheiro − disse ele.

Eles voltaram de carro para casa e, de fato, Bassett foi até o galpão de ferramentas e voltou com quinze notas de cem libras. As vinte libras de reserva foram deixadas com Joe Glee, depositadas na Comissão do Turfe.

− Está vendo tio, dá tudo certo quando eu tenho certeza! Daí, vamos com tudo, pra valer mesmo. Não é, Bassett?

− É isso mesmo, senhorzinho Paul.

− E quando você tem certeza? – perguntou o tio, rindo.

− Bem... Às vezes eu tenho certeza absoluta, como aconteceu com o Daffodil −, disse o garoto − e às vezes eu tenho uma ideia; e às vezes, eu não tenho nem ideia, não é Bassett? Nesse caso nós tomamos cuidado, porque na maioria das vezes perdemos.

− Vocês perdem! É mesmo? E quando você tem certeza, como no caso de Daffodil, o que faz você ter essa certeza, filho?

− Bem... Eu não sei − disse o garoto, constrangido −, eu tenho certeza, tio; só isso.

− É como se viesse do céu, senhor − reiterou Bassett.

− Eu diria que sim! − ponderou o tio.

Mas ele se tornou sócio. Quando a corrida de Leger estava para acontecer, Paul tinha certeza de que Lively Spark iria ganhar, embora fosse um cavalo considerado insignificante. O garoto insistiu em apostar mil libras nele, Bassett apostou quinhentas e Oscar Cresswell duzentas. Lively Spark chegou em primeiro, e as apostas eram dez para um contra ele. Paul ganhou dez mil.

− Viram? – disse ele − Eu tinha certeza absoluta.

Até Oscar Creswell levou duas mil.

− Olhe aqui, filho − confessou ele −, esse tipo de coisa me deixa nervoso.

− Não precisa ficar nervoso, tio! Pode ser que eu não tenha certeza por muito tempo.

− E o que você vai fazer com seu dinheiro?− perguntou o tio.

− É claro que eu estou fazendo isso por mamãe − afirmou o sobrinho –, ela disse que não tem sorte, porque o papai é azarado; então, eu pensei que se eu fosse sortudo, aquele sussurro iria parar.

− Que sussurro iria parar?

− O da nossa casa.  Eu odeio quando a casa sussurra.

− E o que ela sussurra?

− Ora... Ora...− o garoto ficou inquieto – Ora... Não sei. Só sei que é sempre por causa da falta de dinheiro, sabe, tio.

−Eu sei filho, eu sei.

− Sabe que as pessoas mandam intimações para a mamãe, não sabe, tio?

− Receio que sim.

− E ainda por cima tem os sussurros da casa, como se as pessoas estivessem rindo pelas nossas costas. Isso é horrível! Então, eu pensei que se fosse sortudo...

− Você poderia por um fim nisso, completou o tio.

O menino olhou para ele com seus grandes olhos azuis, que soltavam faíscas geladas e sinistras, sem dizer uma palavra.

− Então! – enfatizou o tio − O que vamos fazer?

− Eu não gostaria que a mamãe soubesse que sou sortudo – disse o garoto.

− Por que não, filho?

− Ela me faria parar com tudo.

− Eu acho que ela não faria isso.

− Ah! − e o garoto contorceu-se todo, de um jeito estranho − Não quero que ela fique sabendo, tio.

− Está bem, filho! Vamos lidar com isso sem que ela saiba.

Eles lidaram com a maior facilidade. Aceitando a sugestão do outro, Paul entregou cinco mil libras ao tio, que as depositou junto ao advogado da família; este ficou encarregado de informar à mãe de Paul que um parente havia colocado cinco mil libras em suas mãos. A soma seria paga em parcelas de mil libras a cada aniversário da mãe, durante cinco anos.

− E aí, ela terá um presente de aniversário de mil libras durante cinco anos! − disse tio Oscar – Espero que, mais tarde, as coisas não fiquem ainda mais difíceis para ela.

O aniversário da mãe de Paul era em novembro. Nos últimos tempos, os sussurros pela casa iam ficando cada vez mais intensos e, a despeito de sua sorte, Paul não podia mais suportar. Ele estava muito ansioso para ver a reação de sua mãe ao receber a carta de aniversário, contando-lhe sobre as cinco mil libras.

Quando não havia visitas, Paul fazia suas refeições com os pais e já não era mais controlado pela governanta. Sua mãe ia à cidade quase todos os dias; havia descoberto um estranho talento para desenhar modelos de casacos e de vestidos. Então, trabalhava secretamente no atelier de uma amiga, que era a principal estilista para os fabricantes de tecidos mais importantes. Desenhava silhuetas de senhoras usando peles, sedas e paetês para anúncios de jornal. Essa jovem artista ganhava milhares de libras por ano, enquanto a mãe de Paul ganhava apenas algumas centenas e continuava insatisfeita. Queria muito ser a primeira em alguma coisa, mas não conseguia, nem mesmo fazendo desenhos de moda para anúncios de jornal.

Na manhã do seu aniversário ela desceu para o café. Paul a observava enquanto ela lia a correspondência. Ele sabia qual era a carta do advogado. Conforme lia a carta, o rosto dela se endurecia e ficava cada vez mais sem expressão. Em seguida, uma fria e determinada expressão surgiu em sua boca. Ela escondeu a carta entre as outras e não disse uma só palavra.

− A senhora não recebeu nenhuma notícia agradável no dia de seu aniversário, mamãe? – perguntou Paul.

– Mais ou menos agradável – respondeu ela indiferente.

E saiu para ir à cidade, sem dizer mais nada.

À tarde tio Oscar apareceu e disse que sua mãe tinha tido uma longa reunião com o advogado na qual ela lhe perguntou se não poderia receber as cinco mil libras de uma vez, pois tinha dívidas.

− O que o senhor acha, tio?

− Eu deixo a decisão com você, filho.

− Dê tudo a ela, então! Podemos ganhar mais com o outro − disse o garoto.

− Mais vale um pássaro na mão do que dois voando, mocinho! − disse o tio.

− Tenho certeza que vou saber no  Grand National ou no Lincolnshire; ou mesmo no Derby. Tenho certeza que em algum desses eu vou saber − disse Paul.

Tio Oscar assinou o contrato e a mãe de Paul pôs as mãos nas cinco mil libras. E foi então que algo muito curioso aconteceu. De repente, as vozes na casa enlouqueceram de vez, como um coral de sapos em noite de primavera. Havia mobília nova e Paul tinha um tutor, pois no semestre seguinte, ia mesmo para Eton, a escola onde seu pai estudara. Havia flores no inverno e um resplandecer do luxo com o qual a mãe de Paul estivera acostumada. E mesmo assim, as vozes na casa, por trás das mimosas e das flores de amendoeira, e debaixo das pilhas de almofadas iridescentes, trilavam e gritavam como se estivessem em de êxtase: É preciso mais dinheiro! Ohhh! É preciso mais dinheiro. Oh, agora, agoraaa! Agoooraaa – é preciso mais dinheiro! − mais do que nunca! Mais do que nunca!

Aquilo assustava Paul terrivelmente. Ele estudava latim e grego com seus tutores, mas vivia intensamente as horas que passava com Basset. O Grand Nacional aconteceu, ele não “soube” e perdeu cem libras. O verão se aproximava. Ele agora sentia-se angustiado com relação ao Lincoln; só que também em relação ao Lincoln ele não “soube” e perdeu cinquenta libras. Ficou estranho, com um olhar selvagem, como se algo nele fosse explodir.

− Deixe para lá, filho! Não se preocupe com isso!− insistia o tio Oscar. Mas era como se o menino não pudesse, de fato, ouvir o que o tio estava dizendo.

− Eu tenho que “saber” para o Derby! Eu tenho que “saber” para o Derby! − repetiu o garoto com seus olhos azuis brilhando em desatino.

A mãe notou o quão agitado ele estava.

− É melhor você ir para o litoral. Não gostaria de ir à praia em vez de ficar esperando? Acho que se sentiria melhor − disse ela, olhando para ele com ansiedade, o coração estranhamente pesado por causa dele.

E o menino levantou seus misteriosos olhos azuis.

−Não posso de jeito nenhum ir antes do Derby, mamãe! − disse ele – De jeito nenhum!

− Por que não? − perguntou ela, erguendo a voz com hostilidade por ser contrariada − Por que não? Você poderá ir direto do litoral para o Derby com seu tio Oscar, se assim quiser; não há necessidade de esperar aqui. Além disso, você dá muita importância a essas corridas; é um mau sinal. Minha família é de jogadores, e você só vai saber quanto mal isso já causou quando crescer; já causou muito mal. Eu acho melhor despedir Basset e pedir ao tio Oscar que não fale mais sobre corridas até você prometer que será sensato. Vá para a praia e esqueça esse assunto. Você está com os nervos à flor da pele.

− Faço o que a senhora quiser, mamãe, mas não me mande embora antes do Derby − disse o garoto.

− Mandar você embora de onde? Dessa casa?

− É − respondeu ele, encarando-a.

− O que faz você, seu menino esquisito, de repente se importar tanto com essa casa? Eu nunca soube que gostava dela.

Ele a olhou sem nada dizer. Tinha um segredo dentro de outro segredo, algo que nunca revelara nem a Basset nem ao tio Oscar.

Depois de ficar parada, indecisa e carrancuda por alguns momentos, sua mãe disse:

− Muito bem, então! Não vá para o litoral antes do Derby, se não quiser, mas prometa que não vai deixar seus nervos em frangalhos. Prometa que não vai pensar demais sobre corrida de cavalos nem sobre páreos, como você diz!

− Prometo! Pode ficar sossegada − disse o garoto displicentemente −, eu não vou pensar muito sobre isso, mamãe. Não precisa se preocupar. Eu não me preocuparia se fosse a senhora.

− Se você fosse eu e eu fosse você − disse a mãe − fico pensando o que deveríamos fazer.

− A senhora sabe que não precisa se preocupar, mamãe, não sabe? – repetiu o menino.

− Ficaria imensamente feliz em saber − disse ela cansada.

− Ah, então, a senhora pode, sabia? Quer dizer, tem o dever de saber que não precisa se preocupar − insistiu ele.

− Tenho o dever? Então vou cuidar disso − disse ela.

O segredo dos segredos de Paul era seu cavalinho de madeira que nem nome tinha. Desde que deixou de estar sob os cuidados da governanta, seu cavalo de balanço foi levado para o quarto que ficava no último andar da casa.

− É evidente que você está muito grande para ter um cavalinho de balanço! − protestava sua mãe.

− Veja bem, mamãe, até ter meu cavalo de verdade eu quero ter algum tipo de animal − essa foi sua insólita resposta.

− Você acha que ele lhe faz companhia? − ela perguntou, rindo.

− Ah, sim, ele me faz muita companhia quando estou lá em cima − respondeu Paul.

Assim, mesmo em mau estado, o cavalo ficava confinado em sua arrogância no quarto do rapaz.

O dia do Derby se aproximava e o garoto tornava-se cada vez mais apreensivo; mal ouvia quando falavam com ele. Estava debilitado e com o olhar enigmático. Às vezes, sua mãe tinha ataques inesperados causados pelo desassossego em relação ao filho. Podiam durar até meia hora e ela quase chegava ao desespero. Ela queria correr para ver o filho, e ter certeza de que ele estava bem.

Duas noites antes do Derby ela estava em uma festa importante na cidade, quando foi acometida por uma de suas crises de ansiedade por causa do menino, seu primogênito; sentiu um aperto tão grande no coração que mal podia falar. Lutou com todas as suas forças, pois acreditava no bom senso. Contudo, o sentimento era mais forte. Teve que deixar o baile e descer para telefonar para casa. Surpresa, a governanta se assustou por ter sido chamada no meio da noite.

− As crianças estão bem, senhorita Wilmot?

− Sim, elas estão muito bem.

− E o Paul? Está bem?

− Ele foi para a cama perfeitamente bem. Devo desligar e ver como ele está?

−Não − disse a mãe de Paul, relutante −Não! Não se incomode. Está tudo bem, não precisa esperar acordada. Devemos chegar em casa logo.

Ela não queria invadir a privacidade de seu filho.

−Está bem − disse a preceptora.

Era cerca de uma da manhã quando a mãe e o pai de Paul chegaram em casa. Tudo estava quieto. A mãe de Paul foi para o quarto e tirou sua capa de pele branca. Ela havia dito à criada que não esperasse por ela. Ouviu o marido preparando um whisky com soda na sala, no andar de baixo.

Depois disso, por causa do pressentimento que teve, subiu as escadas que levavam até o quarto do filho; silenciosamente caminhou pelo corredor. Estaria ouvindo algo? O que seria aquilo? Ela ficou parada na porta do quarto dele ouvindo, com os músculos retesados. Havia um ruído intenso e abafado. Seu coração parou; um ruído surdo, ao mesmo tempo acelerado e vigoroso, continuou. Algo enorme, em movimento violento. O que era? Em nome de Deus, o que era aquilo? Ela precisava saber. Sentiu que já conhecia aquele som; sabia o que era. No entanto, não conseguia localizá-lo. Não podia dizer exatamente o que era; e aquilo continuava sem parar, como algo insano. Com muito cuidado, petrificada de ansiedade e pavor, ela girou a maçaneta.

O quarto estava escuro. Mesmo assim, no espaço próximo à janela, ela ouvia alguma coisa precipitando-se para frente e para trás. Ela olhou estupefata. Então, de repente, acendeu a luz e viu seu filho vestindo um pijama verde, cavalgando o cavalinho de balanço desatinadamente. De súbito, um feixe de luz o iluminou, enquanto ele instigava o cavalo, e também a iluminou, enquanto ela estava ali parada no batente da porta, loira, em seu vestido verde claro e cristal.

− Paul! − choramingou ela – O que você está fazendo?

− É o Malabar! − gritava ele com uma voz estranha e potente − É o Malabar!

Ele a olhou friamente por um estranho e insano segundo, à medida que parava de instigar seu cavalo de madeira. Em seguida, ele caiu com um baque no chão e ela, deixando seu instinto maternal atormentado extravasar, precipitou-se sobre ele para segurá-lo.

Mas estava inconsciente, e inconsciente continuou; com febre, muito agitado, falava coisas sem sentido, e sua mãe permanecia sentada, impassível, ao seu lado.

− É o Malabar! É o Malabar! Bassett, Bassett, eu sei! É o Malabar!

O rapazinho chorava e tentava subir no cavalo de balanço, que lhe havia dado inspiração, e instigá-lo ainda mais.

− O que ele quer dizer com Malabar? Perguntou a mãe com o coração gelado.

−Eu não sei – disse friamente o pai.

− O que ele quer dizer com Malabar? – perguntou ela ao seu irmão Oscar.

− É um dos cavalos que vai correr hoje no Derby − foi a resposta.

E, a despeito de si próprio, Oscar Cresswell falou com Bassett e apostou mil libras no Malabar, a quatorze por um.

O terceiro dia da doença foi crítico: eles esperavam uma mudança. O menino, com seus cabelos longos e encaracolados, agitava sem parar a cabeça no travesseiro. Ele não dormia nem recobrava a consciência, e seus olhos eram duas pedras azuis. Sua mãe, ali sentada, sentia o coração morto, não estava mais lá, de fato, tinha se transformado em pedra.

À noite Oscar Cresswell não pareceu. Porém, Bassett mandou um recado perguntando se ele poderia ir lá por um momento, só por um momento. A mãe de Paul ficou muito irritada com a intromissão; mas, pensando melhor, resolveu concordar. O garoto estava nas mesmas condições. Quem sabe Bassett poderia fazê-lo voltar à razão.

O jardineiro, um camarada baixinho, tinha um pequeno bigode castanho e olhos castanhos muito vivos; entrou no quarto na ponta dos pés, tocou seu imaginário boné, cumprimentando a mãe de Paul e parou ao lado da cama fitando com seus olhinhos brilhantes o menino que agonizava em convulsão.

− Senhorzinho Paul!− cochichou ele – Senhorzinho Paul! O Malabar chegou em primeiro mesmo, vitória certeira. Eu fiz o que mandou fazer e o senhorzinho ganhou mais de 70 mil libras; ganhou sim. Agora tem mais de 80 mil libras. Malabar ganhou mesmo, senhorzinho Paul!

− Malabar! Malabar! Eu disse Malabar, mãe? Eu disse Malabar, mãe? A senhora não acha que sou sortudo, mãe? Eu sabia que era Malabar, não sabia! Mais de 80 mil libras! Eu chamo isso de sorte, não é mamãe? Mais de 80 mil libras! Eu sabia, não sabia? Malabar venceu mesmo. Se eu cavalgar meu cavalinho até ter certeza, aí eu falo com você Bassett e você pode apostar o quanto quiser. Você apostou tudo que podia Bassett?

− Apostei mil nele, senhorzinho Paul.

− Mamãe, eu nunca lhe contei que se eu cavalgo e chego lá daí eu tenho absoluta certeza. Ah, absoluta! Eu nunca lhe contei, mamãe? Eu sou sortudo!

− Não, você nunca contou − disse a mãe.

Mas o garoto morreu naquela noite.

O menino jazia morto; e mesmo assim, a mãe ouvia a voz do irmão dizendo a ela:

− Por Deus, Hester, você se deu bem com 80 mil e o coitadinho do seu filho se deu mal. Pobre diabo, pobre diabo, melhor que tenha ido desta vida do que ter que cavalgar o cavalinho de balanço para achar um vencedor.

 

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Olá, deixe seu comentário para O Ganhador do Cavalinho de Balanço – Tradução Sandra Schamas

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