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ESCREVER FAZ BEM OU FAZ MAL? por Sandra Schamas

ESCREVER FAZ BEM OU FAZ MAL? por Sandra Schamas

Para revirar as gavetas do passado é preciso curiosidade, uma certa coragem e muito desprendimento.

Quando a maturidade chega, vem uma vontade de escrever memórias, como se assim a gente ficasse por aqui para sempre. Além disso, tentar organizar um passado faz com que a gente passe a vida a limpo. Dizem que escrever memórias faz bem, mantém a cabeça ocupada com o projeto, exercita o relembrar. Acho que às vezes a gente fica bem, às vezes não. Para revirar as gavetas do passado é preciso curiosidade, uma certa coragem e muito desprendimento.


Já faz um ano que publiquei meu livro "As Tias,  lendas de uma família..." pela Editora Patuá. Isso me fez avaliar o resultado, ou seja a resposta dos leitores. Não são tantos quantos eu gostaria, mas são bons, atentos, generosos nos comentários e nas críticas. Posso dizer que valeu.


Refleti também sobre a minha escrita, o meu processo de escrever as memórias e como eu me sinto ao escrever meus textos, sejam eles de um projeto em andamento ou simples crônicas que posto aqui e ali.

 
Escrever "As Tias" foi um longo processo mas resultou em um estado de accomplishment. Como traduzir? Plenitude, realização, talvez dever cumprido ou sonho que se realizou às custas de perseverança e determinação. Tive uma fase inicial, quando descobri alguns segredos de família e, com isso, a vontade de querer saber mais sobre as pessoas que não estavam mais aqui. Principalmente minha avó, que pouco conheci, e despertou em mim imensa curiosidade. Na fase da pesquisa, o cuidado de tocar nos assuntos proibidos e tentar entender o como cada omissão afetou seus descendentes. A seguir, foi a fase do quebra-cabeças, juntando peças, ou fragmentos de relatos. As pessoas foram morrendo, nesse meio tempo, e umas histórias soltas foram se conectando com outras.


Ouvi muitas opiniões de leitores beta, professores e escritores. Travei. Deixei o livro de lado por algum tempo e marquei uma data para fazer a revisão final. Nesse meio tempo, pensei que o livro era meu e que assumiria toda responsabilidade pelo conteúdo e qualidade do texto. As opiniões foram todas válidas, mas escrevi como eu mesma achava que deveria ser. Nessa revisão, limpei tudo o que indicasse julgamento ou preconceito de minha parte e assim pude perceber quanto amor existiu nessa família de imigrantes e seus descendentes.


Escrever sobre a história da família de minha mãe me fez bem. Foi uma sublimação dos ressentimentos que juntei durante minha própria vida, foi um passar a limpo muito benéfico. Senti que todas aquelas pessoas estavam ali comigo e que elas também estavam se sentindo bem. Tive uma longa depressão “pós-parto” e depois de quase um ano decidi que o que eu quero fazer da vida de agora em diante é escrever. E tudo que diz respeito ao hábito de escreve: ler, estudar e estar com pessoas que tenham o mesmo interesse que eu.


Acredito que escrever “literatura” me faz bem. Escrevo todos os dias. Escrevo o que eu quero que os outros leiam no computador. Depois transformo em livros, contos, cônicas, mini contos e publico algumas coisas. Porém, tenho cadernos e mais cadernos de escrita a mão, com canetas coloridas ( ou não, depende da fase) onde escrevo o que não quero que leiam. Geralmente são cadernos bonitos, brochuras com capa de tecido ou belas estampas onde escrevo para mim, para minha reflexão e autoconhecimento. Às vezes o processo é um pouco doloroso, mas não tenho censura, ponho para fora o que me aflige. Escrever assim também me faz bem.

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